sábado, 12 de abril de 2014

Casamento sem alianças



A gente casa por dentro
Nem todo mundo sabe disso
Mas é assim sim
Tem muita gente com aliança só no dedo
Mas o coração não é o mesmo
A gente casa é na alma
E faz uma casa pra pessoa lá dentro
Esses são os verdadeiros casamentos

mô amorim

sexta-feira, 11 de abril de 2014

nem título

e que mesmo eu arisca
e que mesmo eu escorregadia
e que mesmo eu assim, fugidia
você insiste em me escutar
chegou manso
amigo
abrigo
não
não posso prometer que este convívio vire romance
que esta rua vire avenida
que este bairro vire metrópole
mas, rapaz
esse teu jeito...

mô amorim

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Daí, então mais nada.

a gente só sabe que não pode parar de caminhar. era inevitável chegar a este vale onde a admiração de outrora já não reina mais. e a gente não sabe porque ficou tanto tempo parada esperando o outro. mas tudo, parece, tem um motivo. falta pouco. mas como se sabe? deve ser porque as lembranças revisitadas estão envoltas em névoas densas. eu não vejo mais tanta beleza aasim nelas. quando eu estiver curada, não vai sobrar mais nada: nem saudade, nem raiva. e será o fim do amor. 

mo amorim

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Pó de estrelas

Outro dia, tinha um monte de criança na minha sala e, depois de espirrar algumas vezes, uma delas me perguntou: "_Está gripada, tia?" Pra não dar resposta óbvia, eu disse: "_Não... é alergia a pó de estrela." Pronto. Foi suficiente para iniciar a fantasia. Então eu expliquei: "_Noite passada, eu não tinha nada pra fazer e fui dar uma volta com a minha vassoura. Voei alto, exagerei, eu sei. Quando pensei em voltar, na hora da curva, esbarrei em uma das pontas de uma estrela e, você sabe, né? Eu tenho alergia a pó de estrela. Só foi isso acontecer e comecei a espirrar sem parar. Atchim!" Juro pra vocês que alguns acreditaram. Ficaram rindo, querendo duvidar. Foi engraçado e gostoso. E querem saber? Criança precisa disso. E a gente, muito mais. 

mô amorim

segunda-feira, 31 de março de 2014

O dentro do dentro das personagens por dentro de mim


desenho de mô amorim

Eu não sei como é o processo de escrita das outras pessoas. O meu, claro, é bem maluco. Outro dia assisti a um vídeo da Eva Furnari onde ela relatava que em certa ocasião, estava quieta quando, de repente, veio uma grande trupe em sua direção. Isso aconteceu no âmbito mental e eram vários personagens querendo aparecer para o mundo. Ela não teve escolha e hoje eles são nossos conhecidos através de sua obra. Eva queria trabalhar apenas com uma personagem, mas moravam outros dentro dela e, que bom, viraram história. Eu chego a desconfiar mesmo que eles têm vida. Os dela e os meus. O meu processo de escrita, por exemplo, se dá de várias formas, mas  sempre vinculado a uma imagem. Sempre vem uma cena à cabeça e uma personagem. Alguns textos-poemas meus nasceram porque imaginei uma mocinha de sapatilhas andando pela casa, abrindo geladeira, lendo um livro ou fumando um cigarro escondido. Mas daí você pode me perguntar por que eu só escrevo sensações. E eu te dou a resposta clara e precisa: são essas moças que eu imagino, fazendo trivialidades durante o dia que sentem isso. Ou eu mesma que sinto e transfiro a elas. Fica mais bonito assim. Esse sentir fica mais charmoso se não for eu, se for qualquer uma delas. Também já fui surpreendida por personagens masculinos querendo falar por mim, mas são raras aparições. E sim, eu me confundo com as personagens e elas comigo. Moram à francesa dentro de mim e moram até francesas dentro de mim. Moram várias e eu estou virando um perigo social. Não nego que eu ache divertido e às vezes, mais real que os elementos estáticos habitantes do mundo que me dizem real. Mas a arte (me atrevo a dizer que faço arte) é uma coceira na cabeça, tipo piolhinhos infernizando você. É uma inquietação tão grande, que se não colocar pra fora, chega a doer. Pois bem, essa moça sentada acima que você vê, estava lá dentro habitando em mim. Na hora de dormir, ela e muitas outras, ficam flutuando em cima mesmo das minhas pálpebras fechadas e ainda me pergunto por que não durmo direito e acordo sempre com esses olhos vermelhos. Esta sentada aí, meio desfocada porque o papel ficou torto enquanto eu fotografava, é uma escritora aflita olhando para a tela branca do computador, esperando a ideia vir. Ela não ficará todo o tempo ali. Levantará para fazer um chá e olhar revistas de decoração. Poderá ainda até arriscar arrumar uma gaveta ao som de qualquer música especial que pesque a ideia dorminhoca dentro dela. E dentro dela há outro universo que eu tento explorar. Isso leva tempo, como tempo leva para amar. É quase como querer entender aquela embalagem antiga de Pó Royal que fica dentro de outro Pó Royal e assim infinitamente. Não sei quantas camadas há entre mim e a história repousando lá dentro do dentro das minhas personagens. O que importa é que estou disposta a vasculhar estas graciosas habitantes de mim e talvez eu tenha que desenhá-las, até entender tudo, ou pelo menos, escrever tudo que elas querem me dizer. E ai de mim se não o fizer...

domingo, 23 de março de 2014

Uma crônica de cinema mais mademoiselle impossível...

[*adianto aqui minha próxima crônica para a coluna 'Godivas' no Cinezen]



O outono chegou. Diferente de antes, dessa vez ela o viu chegar. Abriu as janelas e logo teve os cabelos despenteados pelo vento. Vive agora de cachos e não se importou se alguns pingos da chuva caíram sobre sua cabeça. Sorriu amarelo: no outono é assim. Tudo fica meio sépia, como os melhores prêmios de fotografia do cinema. Outono é o início de tons cor de cinza que virão quase macios e ternos com o inverno. Aqui não neva, mas se nevasse, com ponches quadriculados ela sairia a brincar. Uma brincadeira tímida, porque tudo no outono é discreto. Parece que cabem mais abraços que beijos nesta estação; mais aconchegos que arroubos.
Outono é tempo de livros abertos e pensamentos dispersos. Tempo de ficar em casa de pijamas ouvindo Miles Davis dizendo “I ove you” com seu trompete. Ou ainda, tempo de olhar o mar de ondas revoltas, quebrando brancas e espumantes na praia quase deserta.
Mas o outono também é época especial para ir ao cinema. Tem um sabor especial. Leva-se sempre um casaco, uma chemisier mais elegante. Tanto a prévia quanto o momento pós-filme pedem um café. Chocolates com conhaque também são bem-vindos nesta estação.
No outono, os filmes já foram premiados. O burburinho ansioso já acabou, dando lugar aos títulos alternativos. As cabeças pensantes e os cinéfilos de plantão aguardam qualquer novidade iraniana pintar nas telas.
Ela anda pelas calçadas a caminho do cinema e já avista casais de velhinhos de mãos dadas. Desconfia que neste momento, n’algum lugar, existam amantes felizes. Sabe que são poucos e raros, como raro é o amor. Das teorias que sustenta, esta é a mais triste: raridade são duas pessoas se amarem ao mesmo tempo e com a mesma intensidade. Quando isso acontece, melhor obedecer à loucura do amor para que todo o resto não vire triste monotonia de viver.
Ela compra o bilhete enquanto Louis Armstrong canta “A Kiss to build a dream on” no café ao lado. Ela não aguenta e sorri. Costuma flutuar com músicas assim, mesmo sem vinho corendo nas veias e dilatando os poros da face do rosto. Hoje ela passou colônia no corpo e sorriu de novo só por causa disso. Vai pisando fofo o carpete vermelho da sala que lhe espera. Um casal aqui, outro ali. Ela senta sozinha e imagina alguém do seu lado. Um ombro forte para deitar a cabeça enquanto o filme não começa. Ou mãos para segurar na hora do suspense, do susto, do medo. Mas não há ninguém. Ela escolheu ficar sozinha porque depois de muito amor, nada se compara, nada se compara... Está levemente rubra neste momento.
O trailer de um filme qualquer pinta na tela e pensa nos beijos desperdiçados. Pensa em tanta coisa. As luzes se apagam por completo. Pensa nas montanhas não escaladas, nas trilhas não percorridas, nos riachos não explorados. Pensa que poderia ser outra e fugir dali. O que e por que o cinema lhe causa isso tudo? Será só com ela? Que força tem uma ficção de acender nela tantos sonhos assim?
De repente, um pensamento lhe cai no ombro esquerdo. É um anjo irlandês que veio direto da Europa lhe contar o que já sabia. Ela nunca imaginaria tanto labor assim só por causa dela, mas ele veio e a tranquilizou. Disse, quase suspirando (porque as palavras em baixo tom são as que reverberam mais), para que ela não se esquecesse: você mora no amor.
Uma lágrima despencou dos olhos da atriz de tez branca e opaca na tela. Outra lágrima deslizou sua própria face. Lembrou que é sempre em salas de cinema que renova os votos de ser quem é. O filme acabou. Nos créditos, tantos nomes bonitos.
Espera todo mundo sair. O rapaz que verifica os assentos cantarola “Amor de loca juventud” e ela só sabe disto porque ama Buena Vista Social Club. Ajeita o casaco e sai. Ainda tem os chocolates com conhaque no bolso. Em casa lhe esperam o vinho, os chinelos novos de quarto e a tela branca do computador. A crônica já está pronta, escrita durante o filme, sem caneta mesmo. Escrita por dentro, íntima e rubra. Mais mademoiselle, impossível.
O outono lhe espera lá fora, assim como outros anjos. Ela sorri.

Um beijo, Mô Amorim.

Harley voadora



esperei a madrugada
nela, as ideias assombram mais
peguei uma escada
(desvairada essa minha liturgia)
e a finquei no jardim
úmido e tenso
degrau por degrau, subi 
de camisolas 
orvalho e grama
pensamento e lama
o peso do céu espalmado na mão
o peso da vida posto no chão
até pensei que o ar faltaria
mas, não
quanto mais escuro foi ficando
um azul profundo profano 
entrou pelos brônquios
na pleura jasmim
e eu meti as fuças 
lambi a via láctea
eu subi
e pra descer?
não se desce
daqui de onde estou
não se desce mais
meus cabelos agora são raízes
que crescem para cima
e fincam n'algum
astro embaraçoso e flutuante
não mais moro, eu pairo 
pra me acompanhar
só de Harley voadora
capacete de astronauta
e uns beijos bons 
na minha nuca tatuada

mô amorim





sábado, 22 de março de 2014

Das vantagens de amar



Ter uma fração de amor diário muda a saúde da alma
E só sabe quem já amou
É bem diferente viver apaixonado
O dia não pesa
O cansaço não chega
Só se dorme por costume
Porque o ser nunca se cansa de amar
O outro vira o quintal preferido
O filme escolhido
É para sempre o lugar onde a gente quer morar

mô amorim

Revoada


Pintura de Tati Barros

alguém notou que os pássaros estão mais felizes? é muito sutil... só alguns conseguirão observar... não sei se por causa da chegada do outono (estação que amo e propícia a entrelaçamentos), mas eles voam parecendo sorrir... rebatem o vento... a velocidade das asas muda... eles giram numa dança linda... e eu sempre imagino violinos para essas horas... eles parecem querer brincar... e brincam! que Deus me dê sempre olhares, pontos de vista, motivos para enxergar o que de belo Ele tem a me ensinar... por causa disso, eu pensei além... e eu sempre penso... que talvez, não só os pássaros voem alegremente no outono, mas as folhas também... por tanto tempo acreditou-se que elas, coitadas, caíam... quem sabe, naqueles segundos, de suposta queda, elas estejam, simples e graciosamente, apenas querendo imitar os passarinhos? apenas querendo voar... 


mô amorim

quinta-feira, 20 de março de 2014






Ontem eu estava voltando à noite da faculdade e fiquei com os olhos marejados ao presenciar a cena: duas moças cegas estavam no ponto de ônibus na Avenida Ana Costa. O motorista percebeu que havia parado longe da guia da calçada. Ele aproximou o ônibus e elas conseguiram subir. Ele também disse que iria deixá-las no lugar desejado, que ficassem tranquilas. Quantas vezes nós temos a oportunidade de deixar alguém tranquilo e não o fazemos? Procure prestar atenção em suas palavras. Você semeia a calma e a esperança ou assusta os outros com a pouca fé do seu coração? 

mô amorim

domingo, 16 de março de 2014

Mais uma crônica minha para o Cinezen

A Vida Secreta das Palavras: a dor alheia e as ondas não se repetem jamais

Por Mô Amorim


Sou atraída por tudo que se refere à palavra. Não é exagero, juro. Para mim, é como se elas vivessem numa espécie de Minhocário das palavras. Mesmo quando escondidas, estão ali perfurando, fazendo novos túneis de significações. As palavras têm ainda o poder de remodelar o passado de acordo com a emoção que colocamos nele. Elas criam formas para nossos sentimentos. Fazem bagunça nas nossas relações amorosas. Muitas vezes, aproximam pessoas. Noutras, pioram as coisas igual a passaporte para o deserto. Palavra quando fica escondida no peito, pesa. Palavra dita sem coração dói no outro. Palavras têm tons, cores, cheiros, sabores. Há palavras que salvam e outras que matam. São exímios martelos que ficam batendo madrugada afora.
Eu não sabia o que estava guardado dentro deste filme. Assim, quando vi o título “A Vida Secreta das Palavras”, não titubeei. Achei aquilo bonito: vida secreta das palavras. Acabei me lembrando do meu próprio Minhocário e me aventurei a assistir a esta película da diretora catalã Isabel Coixet. Queria ver, sob outros pontos de luz, como as palavras têm o poder de acionar dores e curá-las. Sim, eu acredito nisso!
O filme começa com Hannah, trabalhadora diligente em uma fábrica em algum lugar da Europa. O trabalho mecânico, os gestos secos e sem grandes aberturas pouco revelam sobre ela, a não ser seu jeito eremita de ser. Num belo dia, Hannah é chamada pelo chefe que, curiosamente sugere que ela viaje. Ao contrário dos outros funcionários, ela não faltava ao serviço e nem tirava férias. Era estranhamente assídua e exemplar; metódica e sem expressão. E quase que cumprindo uma ordem de cunho empregatício, obedece.
Tudo é estranho: o ônibus, o quarto do hotel, a comida. Quando parece estar perto de enlouquecer, oferece-se, em plenas férias, para ser enfermeira de um homem acidentado numa plataforma de petróleo. É neste ponto do filme que começam as experimentações humanas. Porque a gente só é de verdade quando esbarra no outro. A plataforma estava desativada devido a um acidente. Os trabalhadores dali estavam apenas aguardando os encaminhamentos da empresa. Curiosamente, cada um ali é atraído por um tipo de solidão. Desde o cozinheiro que, só para ter um pouco de alma, deixa tocar no rádio a música referente ao país da receita que executa, como o oceanógrafo que mede o número de ondas que batem na plataforma. Em vez disso, ele queria mesmo era salvar os mexilhões que ali vivem. São poucos que restaram ali e cada um atravessa os dias na sua pequena solidão. Mesmo assim, na plataforma, há balanços, música e sonhos para ninguém se esquecer que ainda moram humanos naquele lugar.
O paciente acidentado e com graves queimaduras pelo corpo é Joseph, sujeito ácido com as palavras. Ele está cego temporariamente e, ironicamente, é cuidado por uma enfermeira que pouco quer falar. Dentre os muitos diálogos do filme, ele lhe pergunta sobre sua comida preferida. Ela só comia frango, arroz branco e maçãs religiosamente. Então ele solta palavras no ar que vão quase se corporificando naquele quarto: chocolate com coco, semente de girassol, sorvete de gengibre, passas, tâmaras… Ela parece ignorar, mas bastou isso para passar a devorar outros sabores. Ah, as palavras…
Ele, mesmo sem enxergar, sabe que ela é loura. Sente tão forte seu cheiro de sabonete de amêndoa doce. Aos poucos, Hannah começa a falar. Em meio aos cuidados destinados a Joseph, ela consegue imaginá-lo com quinze anos. E, senhores, quando uma mulher faz isso, é sinal de que ela está se apaixonando. Joseph é esperto, percebeu que ela gostava um pouco dele. Mas muita coisa acontece. Mais dentro que fora dos personagens. Será que um homem suporta o passado de dor de uma mulher? Foi uma das perguntas que ficou flutuando na minha cabeça enquanto eu acompanhava o desenrolar do enredo.
Hannah pouco fala, mas as palavras estão ali dentro dela, desobedientes, sem cessar. Sua consciência tem a voz de uma criança e é audível para o espectador. Ecoa cá dentro de nós também quando diz: “Isso é tudo? Matar o tempo antes que o tempo te mate?”. E percebemos que há pessoas que escolhem viver assim. Há metáforas espalhadas pelo filme. As feridas visíveis de Josef doem menos do que as internas. Seu estado momentâneo de cegueira revela um homem que não quer enxergar certas coisas. Hannah, além de pouco falar, carrega um aparelho de surdez. Talvez por medo das palavras moradoras dela se cruzarem com as palavras moradoras de outros seres. Talvez tenha medo de não suportar dores alheias.
O filme é belo e denso, de imagens difusas, luz discreta para não alardear o desolamento dos ambientes e das pessoas. Mostra também como a política afeta nossas relações. Assim, o longa transita em dois planos, o pessoal e o político. Fala da guerra dos Balcãs, do quase esquecimento do sofrimento de milhares de armênios nas mãos de Hitler, etc.
avidasecretadvd“A Vida Secreta das Palavras” é belo e me apontou várias perguntas: como suportar a dor do passado de alguém? Hannah, diante do convite de Joseph para irem morar no Chile, acionando as palavras moradoras dela, achou melhor se afastar dizendo: “Vou começar a chorar tanto, que nada nem ninguém vai me fazer parar. As lágrimas vão encher o quarto, não vou conseguir respirar… Vou levar você para o fundo comigo, e nós dois vamos nos afogar”. E ele responde: “Eu vou aprender a nadar… Eu juro que vou aprender a nadar… ” Será que ela aceita? Será que o argumento de um coração que ama é capaz de salvar um coração que sangra? Ah, e Joseph, apesar de trabalhar em uma plataforma de petróleo, não sabe nadar. Ironias…
O filme acaba. Apago a luz, mas as palavras moradoras de mim cutucam as palavras moradoras da consciência de Hannah: “As ondas nunca se repetem.” As palavras moradoras de mim respondem: As ondas não se repetem jamais.
Um beijo cheio de emoção, Mô Amorim.

sábado, 8 de março de 2014

Dia 8 de março: Não me venham com flores!



Não, não me venham com flores! Eu não quero agradinhos hoje! Nem depois!
Vocês sabem do que eu estou falando! Sem essa de apagar todo o sangue e sonho derramados em todo 8 de março de cada ano. Aliás, presentinhos depois de toda esta merda que vivem nos fazendo durante séculos, parecem um consolo-disfarce para ser engolido e calar.
Mulheres morrem toda hora porque querem se separar de seus companheiros, como se não tivessem o direito de deixar de gostar ou deixar de apanhar. Não dá, sabe? Até quando iremos ser tratadas como mercadoria adquirida?
É... Eu tive que me fingir de burra para conseguir escapar de grilhões. Foram alguns bons anos até poder ser eu. É mais ou menos assim: alguém tenta te matar e você finge que morreu. Você não respira, fica imóvel, cerra os olhos e espera o algoz se afastar. Mas quem disse que a gente não morre um pouco em cada cena dessas para depois acordar? Então, a uma distância segura, você corre e com o molho de chaves escondido no avental de serviçal que lhe deram, você abre todos os portões da sua mais linda prisão. Só que você não sai a mesma que entrou. Eu garanto. Não, não tentaram me matar, apenas os meus sonhos, o que pode ser a mesma coisa. Mas por favor, entendam a metáfora.
Não, não me venham com flores. Não hoje. Nem depois. Enquanto este for o motivo, não me venham com agradinhos.
Mas agora vocês podem trabalhar, alguns dirão. Sim, enquanto vocês assistem televisão e lavamos a louça do jantar e limpamos todo o resto da casa. VTC!
Então é isso, cavalheiros, não somos qualquer coisa. O sexo não é obrigação. A maternidade não é obrigação. Usamos a roupa que queremos e isso não quer dizer necessariamente o que queremos. E quando queremos, qual o problema? A malícia, a lascívia e a vulgaridade estão nos olhos de quem vê.
Como mulheres, somos múltiplas, como nossos orgasmos. Únicas, como a nossa dor. Há algum sexto sentido instalado em nós. Não sei se nas têmporas ou virilhas.
Um vez escutei que mulher não precisava estudar porque, para cortar cebolas, não se precisa muito. Por isso e por outras coisas, continuo estudando até hoje. E enquanto existir um monte de livros não lidos pelas mulheres, amarelando na estante por causa de servicinhos domésticos, a liberdade não chegou!
Ah, e outra coisa: o título de rainha do lar que nos deram, podem enfiar...
Entenderam, né? Nada de flores!

mô amorim



sexta-feira, 7 de março de 2014

Para os queridos daqui que me escrevem

Não entendi ainda, mas meu e-mail monicaamorim816@hotmail.com não funcionará por um mês por falta de um bendito código que eles inventaram. Reativei o e-mail mocravocanela@gmail.com. Tá, sei que é sexy, mas sem gamar, tá? 

segunda-feira, 3 de março de 2014

Quando pedi um homem em casamento



"Uma mulher com a cabeça no teu ombro pode ser o suficiente para a vida valer a pena. E é." Não, eu não escrevi isso. Quem escreveu foi Pedro Chagas Freitas, que merece todos os créditos. Eu mesma nunca conseguiria saber como é esta sensação, justamente porque sou pétala, fêmea, mulher em cada poro e dobra de mim. No entanto, nunca busquei alguém para me sustentar, para me proteger. Gosto de fazer meu próprio caminho com o suor das minhas têmporas. Sabe, eu gosto muito de desbravar (talvez, por isso mesmo, eu tenha me cansado muitas vezes). Mas a sensação de descansar no ombro de alguém foi uma das melhores coisas que já experimentei. Foi tão inexplicavelmente bom que foi a única vez em que me senti impelida a pedir um homem em casamento. Penso agora que talvez ele não tenha gostado tanto assim de minha cabeça no ombro seu, porque ele não aceitou. 
mô amorim



põe em meu coraçãozinho uma bossa eterna, meu amor
ou ainda, replica violinos em mim

faz algo aqui dentro ser feliz feito sinfonia de domingo
porque esta pausa já dura tempo demais


mô amorim

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Será que um dia ainda verei isto de perto?


Ondas a esmagar o cais na Praia da Aguda, em Vila Nova de Gaia, Portugal. Foto: Tiago Pinheiro

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Eu-rio

Rio mesmo, eu só entrei em um. Era raso e tinha peixinho colorido. Meus pés ficaram enrugados, tamanha a vontade da água me tornar sereia. Eu não quis. Eu escolhi outra nascente. Uma que represasse cá dentro e me trouxesse, no lugar de peixes, palavras. Eu sou hoje uma inundação de palavras. Não de significar ou de se buscar no dicionário. Mas palavra de dar sentido ao que nem sabe que sente. Eu também não quero a obrigação de traduzir sentimento alheio. Eu só vou jorrando. Quem quiser se molhar, que fique por perto. Que fique no meu leito. (mô amorim)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O caminho mais fácil sempre vai produzir a pior versão de você mesmo.



Todas as vezes que eu escolhi o caminho mais fácil, eu me ferrei. Paguei caro depois. Resultados: frustração mais arrependimento. Uma dupla bem amarga, por sinal. Não é à toa que o texto bíblico que fala do caminho estreito me encanta tanto. Agora, não somente para as coisas da alma, estou aplicando tal ensinamento no meu cotidiano (na alimentação, nos estudos, na busca pela minha autenticidade, etc). E todas as vezes que me deixei vencer pelo mais fácil, pelo mais cômodo, pela zona de conforto, pelo que todo mundo espera de mim, eu me arrependi. Ou melhor, eu me perdi de mim. Fiquei sem bússola, sem norte, sem farol. O mais fácil nos estraga, engorda e deprime. É mais fácil mesmo pedir comida pelo telefone. E quase sempre, a comida fácil e rápida é gordurosa e viciante. É mais fácil comer um pacote de pipoca de microondas do que pesquisar sobre saúde. É mais fácil reclamar da vida e dizer que não tem sorte. É mais fácil sair com qualquer um só pra não dizer que está sozinha. Mas isto tudo só me deixaria mais só e perdida. Aliás, fingir um relacionamento apenas para agradar a sociedade ou garantir uma estabilidade financeira, só iria me conduzir para a categoria dos medíocres, dos levianos. Eu não sei brincar de ser normal como as pessoas querem. E de uns tempos pra cá, tenho me sentido atraída pelo caminho mais difícil, pelo mais estreito. Eu só sei brincar de ser eu mesma, desse jeitinho assim. Parece que a conta é essa: a gente perde pra ganhar depois. Sim, eu tenho perdido e muito com as minhas decisões. Faz um ano que deixei um de meus empregos. Se eu perdi dinheiro? Claro! Mas ganhei 1.460 horas de ócio, o que representa um total de 60 dias de horário livre no ano para criar um outro caminho aqui dentro. E criei: matriculei-me recentemente em uma outra faculdade onde perco horas estudando. Mas neste ponto do caminho, perder é relativo. Perco minhas horas com estudo, mas ganho outra coisa lá na frente. Deixei de comer certas guloseimas? Mas ganho saúde lá na frente. Parece uma lei imutável, como a que faz seu café cair na xícara em vez de flutuar o líquido pela cozinha por causa da gravidade. Eu só quero a melhor versão de mim, a mais plena. Por isso, não se engane: o caminho mais fácil sempre vai produzir a pior versão de você mesmo.
mô amorim


Pensando em virar hippie antes de tudo dar errado...

domingo, 23 de fevereiro de 2014

nada me comoveu mais como teus olhos sobre mim

mô amorim

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Mafalda lendo Borges


http://arielpalacios.blogspot.com/2009/02/incorrigiveis-querem-levar-borges.htm

Há uma dignidade na morte
há uma dignidade em cimentar o azulejo na lápide
uma dignidade que não sei dizer
mas há
e apesar de ser a mais medrosa das criaturas
tenho até vergonha de Deus por isso
eu incentivo os loucos ao amor
mas eu
eu mesma
sou uma panaca

mô amorim

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Sweet comigo



Ele me pediu respiração boca a boca. Eu disse não. Ele ia já desmaiar. Então eu corri e disse sim ao som do Yes. Eu soprei naqueles lábios e nem percebi. Saiu um pouco de mim, fragmentos d’alma caindo, escorregando para dentro do homemsem ar. Quando vi, era tarde. E como num tombo de Alice, eu já morava em sua barriga. No segundo dia ele me chamou de ‘minha’. Sem titubear, segurei em sua mão. Ele acreditou em mim, acreditou no meu fôlego. Naquele que eu nem sabia ter. E por causa do meu olhar e de tudo que mora nele, ele acreditou em mim. Naqueles dias eu tive vontade de aprender francês e falar coisas perigosas em seu ouvido. Eu tive vontade de ser uma francesa para ler nouveaux romans e acalmá-lo. Mas não dava tempo. Gostei tanto dele que contei todos meus segredos. Virei refém por causa das palavras que iam flutuando, feito fumaça de gerânios, até suas têmporas. Ele absorvia tudo. Convidei-o para ir sweet comigo pela vida. Ele ainda não disse se vem.

mô amorim

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Você já experimentou amar um estranho?



Todos os dias cruzo com pessoas que nunca vi e que, talvez, nunca volte a ver. Eu já me peguei sentindo saudades de desconhecidos. Eu sei que sou esquisita, mas aprendi a me amar e me aceitar assim. Um dia parei e perguntei ao Criador deste barro e desta alma que sou eu, se poderia ser assim mesmo, se poderia seguir amando até quem não conheço. E descobri que isto existe em outros seres humanos. Descobri que não é esquisitice. É amor esparramado, fluído, desinteressado. Nascemos para amar, mas algo tem dado errado por aí. Não, não pensem que sou Madre Teresa e que sentimentos de raiva e egoísmo não passam por mim. Eles passam, mas eu não os deixo ficar. Sofro até que saiam. Eu me quero limpa e esta é uma grande dádiva! E se caso sinto que não estou, imagino-me logo como um copo embaixo da torneira aberta de água limpa e fico ali (mentalmente) até qualquer resíduo de sentimento obscuro sair. Esvazio-me até voltar à essência que Deus quis para mim. Sou como um leito de rio e NÃO me apraz ser um leito de rio de águas paradas e sujas. E que bom que sempre água boa desce das corredeiras para nos limpar! Seja em forma de outras experiências que se abrem para outras visões, seja em forma de gentileza vinda de um estranho direcionada a nós, tais exercícios elevam a alma. Somos todos humanos e passíveis de erros. Mas quando algo belo brota, sabe, eu deixo fluir. Outro dia, para minha felicidade, a amiga Eri Ka lançou um desafio a um grupo de amigos propondo amar e desejar bons sentimentos a um desconhecido na rua. Você já experimentou amar um estranho? Não é virar o melhor amigos dele em cinco minutos, trocar telefone e coisa e tal. Não é disso que falo. Mas apenas parar um pouquinho, mirá-lo dentro de seu íntimo e desejar-lhe o bem. Ele nem precisa perceber. Pode ser num aeroporto, no metrô, no ônibus. Apenas isso: um exercício de desejo sincero que flui do seu coração pelo bem de um estranho que passa por você diariamente. Por uma criança que corre algum tipo de risco futuro ou iminente. Simplesmente desejar que esta pessoa que você talvez nunca mais volte a ver seja feliz e esteja bem. Pode ser um velhinho que se demora a descer do ônibus e talvez volte para a casa para se encontrar apenas com seu televisor. Eu preciso confessar que já fui salva de dias aparentemente feitos para serem ruins desta forma, fazendo este exercício invisível e poderoso. E o contrário também aconteceu: já ganhei sorrisos de estranhos e me senti habitada naquele momento. Somos todos ligados. Somos todos um. A dor do outro é minha também ainda que eu não queira saber disto. E todos os homens, sem distinção, guardam o bem e o mal dentro deles. Alguns escolhem o caminho, outros, quem sabe, são escolhidos. Não sei ainda tudo. Nem poderei um dia saber. Mas enquanto estiver aqui, quero aprender estes exercícios de amor, estes exercícios de amar. E você? Já experimentou alguma vez amar um estranho?

Mô Amorim.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014



amar é esvaziar-se
onde há excesso de ego, não cabe amor
nem cabe amar

mô amorim

Valentine's Day



Um amor para arrancar-lhe
Sorrisos
Gemidos

mô amorim

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Enquanto astronautas trocam peças de ônibus voadores





A terra gira. Tão loucamente. Mais que eu. Sentada neste chão de todos, ainda vejo a menina rodando, braços abertos, vestido girando, fita na cintura. A saia franzida. A meia branquinha com barrado em rechiliê. Eu era a garota dos lenços bordados. Lembro muito das fitas. Dos frascos. Dos retratos. Agora sou a mulher qualquer que compra pão no hipermercado e todos os sapatos me machucam. Eu quis ser mais simples. Eu tenho a meia-calça que todas as mulheres têm. Mas eu não sou elas. Eu sei que a terra gira. Tão veloz. E faz barulho de existência aqui no meu ouvido. As palavras perdidas são ouvidas pelos astronautas enquanto trocam peças de ônibus voadores. E meu pensamento tem passo de formiga. Por isso, eu salto nas minhas frases. O tempo que o parágrafo me permite. E só o ponto de exclamação me esclarece. Eu quero que você entenda minha pontuação. O meu ritmo. Não. Eu não quero que você entenda. Eu quero que você me aceite. Como eu aceito o que escrevo. Como eu permito que as palavras se acheguem. Elas acordam neste papel e agradecem. Antes, estariam simplesmente dormindo no universo-azul-espaçonave. Eu sempre soube que as palavras caíam do céu. De noite. Ei! Eu sempre soube. 

mô amorim

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Sexto dia de férias



Eu sempre tive medo de ser morna. De ser quase. Quando ingressei no Magistério, confesso, tive medo de ficar acinzentada feito os armários que guardam diários escolares. Quase vinte anos depois, comemoro feliz o fato de ter em mim ainda todos os sonhos do mundo! Tanto que aos 44 anos resolvi cursar Direito. Ontem foi mais um dia especial. E todos os dias são especiais. É que tem gente que está ainda dormindo para o belo. Bem, organizei mentalmente algumas leituras que terei de dar conta. Tenho uma lista infinda e isso não me causa mais angústia. Pelo contrário, eu tenho motivos, sentidos para minha existência. Ontem também percebi como ganhei amigos especiais pelo caminho. E que feliz caminho tenho trilhado! Ontem na faculdade, eu senti muita gratidão por ter escolhido a Educação como meu lugar de cidadã do mundo. Deu um baita orgulho, sabe? Porém, não daqueles que infla o peito e consola o ego. Mas o de saber-se inserida nos sonhos de outros pequenos e pequenas. De poder olhar para trás e sentir que respeitei meus alunos pelo adulto que eles iriam se tornar. E durante a aula, o livro ''Pedagogia da autonomia'' de Paulo Freire vinha toda hora à minha cabeça. E grata, percebia como meu discurso sempre coadunou com o dele. Que suas palavras não foram para mim apenas matéria de faculdade. Foram palavras que teorizaram a minha prática de ser Mônica em todos os campos da minha vida. Não sei ainda os caminhos deste novo caminho. Eu me sinto como criança brincando de ser alguém. Mas o melhor de tudo é saber que levo uma bagagem muito emocionante comigo e que nunca as palavras de Paulo Freire fizeram tanto sentido para mim: "...quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado." Um beijo, Mô Amorim.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Volver a los 17



Resgatar sonhos antigos; 
iniciar uma nova graduação; 
emocionar-me ao adentrar novamente o ambiente acadêmico como aluna; 
sentir-me grata a Deus pelo desenho de novos caminhos sob os meus pés. 
Estou me reconstruindo. 
Foi bom esperar um dia, mais um dia, depois de outro dia. 
Foi bom chegar até aqui. 
Estou feliz e com vergonha de ter ficado triste um dia. 
mô amorim

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sábado, 1 de fevereiro de 2014


Tenho descoberto que,
quanto mais simplifico a vida,
mais pleno o coração fica.
Os tesouros internos,
aqueles que não dependem de ninguém,
podem ser levados a qualquer hora para qualquer lugar.
Não tenho mais medo de ir, nem medo de ficar.

mô amorim