http://g1.globo.com/Noticias/Cinema/foto/0,,15259116-EX,00.jpgE se a vida fosse uns biscoitos e café? Umas conversas cheias de biscoitos e café e mesinhas baixas de madeira e almofadas. De uns gestos doces e amigos. Eu sinto. Eu sinto. Da janela do apartamento avisto as plantas da vizinha. Mas eu mesma nunca tenho plantas. Ainda estou sentada na sala desse apartamento e sempre atrasada. Tacos de madeira lendo Saramago. E não quero colonizar ninguém mas ainda há terra que me surpreenda. Há um pedaço de chão humano que me faz desejar ficar. Só navego, navego. Talvez pés descalços e mãos amigas me chamem direto do peito. Ecos de uma tribo indígena: respeito alienígena. Está bem. Ainda é o amor como um belo bolo de aniversário de sete anos. O amor é justamente aquele granulado em cima. Fale do recheio. Mas lambuza. O granulado não. Tenho que, com muita arte nos dentes, mastigá-lo, um a um. E curiosa, descobrir o sabor quebrando na língua intacta de sete anos ainda. Tá. Fale do recheio. Vamos conversar: mas aquele granulado, amor, aquele granulado de nem sei bem o que é me anima a comemorar aquele bolo. As palmas e gritos do parabéns me enervam. Não gosto. E apagam a luz e dá medo de criança em mim. Eu quero mesmo o granulado. Porque o recheio, em potes prontos e não frescos, enjoa. Mas o granulado tem sentido em qualquer lugar e derrubado gentilmente por mamãe em minhas mãos de concha a saboreá-lo pelo quintal: hummm! Desconfio que cantam parabens é para o bolo. Assim me escondo e o amor flui. O aniversário é sempre do bolo: personagem principal e não eu. No momento em que o distribuem, nem olham o aniversariante. É o bolo. É o bolo. Naqueles guardanapinhos passando de mão em mão, respeitando tios, primos e amigos. Hierarquia errada? Eu, no canto da casa, sete anos, sapatinhos e meias como o bolo. Deixo por último o granulado prateado. Do que é feito aquilo, mamãe? Nem ela sabe. Nem tampouco sabe o respeito que tenho ao amor. Sentada ainda, pernas cruzadas de índio lendo tudo que me faça mais selvagem. E todo escritor-nobel-prêmio mora em ilha? Só me vem isso. Eu não te falei: a tatuagem sonhada das costas que era em forma de dragão, virou flor nos ombros. Andou. Eu sou quase uma usina às três da tarde sozinha.




















