Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Granulados de amor em mãos de concha ainda

http://g1.globo.com/Noticias/Cinema/foto/0,,15259116-EX,00.jpg

E se a vida fosse uns biscoitos e café? Umas conversas cheias de biscoitos e café e mesinhas baixas de madeira e almofadas. De uns gestos doces e amigos. Eu sinto. Eu sinto. Da janela do apartamento avisto as plantas da vizinha. Mas eu mesma nunca tenho plantas. Ainda estou sentada na sala desse apartamento e sempre atrasada. Tacos de madeira lendo Saramago. E não quero colonizar ninguém mas ainda há terra que me surpreenda. Há um pedaço de chão humano que me faz desejar ficar. Só navego, navego. Talvez pés descalços e mãos amigas me chamem direto do peito. Ecos de uma tribo indígena: respeito alienígena. Está bem. Ainda é o amor como um belo bolo de aniversário de sete anos. O amor é justamente aquele granulado em cima. Fale do recheio. Mas lambuza. O granulado não. Tenho que, com muita arte nos dentes, mastigá-lo, um a um. E curiosa, descobrir o sabor quebrando na língua intacta de sete anos ainda. Tá. Fale do recheio. Vamos conversar: mas aquele granulado, amor, aquele granulado de nem sei bem o que é me anima a comemorar aquele bolo. As palmas e gritos do parabéns me enervam. Não gosto. E apagam a luz e dá medo de criança em mim. Eu quero mesmo o granulado. Porque o recheio, em potes prontos e não frescos, enjoa. Mas o granulado tem sentido em qualquer lugar e derrubado gentilmente por mamãe em minhas mãos de concha a saboreá-lo pelo quintal: hummm! Desconfio que cantam parabens é para o bolo. Assim me escondo e o amor flui. O aniversário é sempre do bolo: personagem principal e não eu. No momento em que o distribuem, nem olham o aniversariante. É o bolo. É o bolo. Naqueles guardanapinhos passando de mão em mão, respeitando tios, primos e amigos. Hierarquia errada? Eu, no canto da casa, sete anos, sapatinhos e meias como o bolo. Deixo por último o granulado prateado. Do que é feito aquilo, mamãe? Nem ela sabe. Nem tampouco sabe o respeito que tenho ao amor. Sentada ainda, pernas cruzadas de índio lendo tudo que me faça mais selvagem. E todo escritor-nobel-prêmio mora em ilha? Só me vem isso. Eu não te falei: a tatuagem sonhada das costas que era em forma de dragão, virou flor nos ombros. Andou. Eu sou quase uma usina às três da tarde sozinha.

Domingo, 5 de Julho de 2009

Até a água secar


Abri a porta e veio tão forte. Toda aquela água entrar em minha casa. Primeiro inundou os pés dos armários. Eu poderia até falar daqueles pés de armário que eu observava toda manhã ao tomar café. Mas eram tão feios aqueles pés. Bonito era o som da água. Mas do som não sei falar não. Só dos pés dos armários: enferrujados, em parábolas invertidas e tinham um restinho de alumínio da loja que cobria qualquer oferta. Foi de madrugada. Abri aporta e vi a água. Ela foi chegando como se minha casa ficasse no pé de um morro, de uma ladeira. Mas não ficava. Minha casa ficava numa rua plana. Então a água veio de cima. Não senti aquela água como quem leva um tapa na cara e vira. Eu olhei a água de frente. Eu olhei na cara dela. E ela entrou. Na verdade, abri a porta pra ela. Tinha uma cor de madrugada. Porque não tinha cor de nada que sei dizer nítido. E não havia ninguém. Eu não sei por que não me molhei. Depois foram os sofás. Aquele cetim vinho horrível foi ficando preto pelo úmido e imprevisível da água da madrugada. O dia começa de madrugada. Não começa nunca às sete. Sorte guardar os sapatos no alto. Eu não sei que cidade é essa: eu já morei em algumas. Sou escritora municipal com som e gestos municipais. Não sei se estou fora ou dentro da casa. Mas quando a água chegou eu estava quieta. Esperando pela água por causa da sensação. Nunca pelo barulho. Eu não ouço os sons outros. Eu sinto. Molhou agora os botões do fogão. Lavou os azulejos. Subiu naquela borda que permeia o vitrô. Encheu toda a cozinha. Passou da altura dos vitrôs mas não vazou por eles. A água permaneceu ali. Toda se movimentando. Jorrando. Atingindo. Invadindo toda. E continuei naturalmente a fazer minhas coisas. Eu acenderia um cigarro se caso fumasse. Mas eu não fumo. Graças à propaganda? Sei que a água não apagaria a fumaça. Eu poderia fazer até um café. Mas não quis atrapalhar a água. Eu saberia nesse momento ser uma poeta nacional. Talvez transatlântica. Eu saberia nesse momento escrever sobre tudo. Escreveria primeiramente sobre a coceira. Coisa fascinante a coceira. Escreveria sobre o desejo que sempre tive de ser telefonista e trabalhar nos correios. Descreveria um tapa em trinta páginas e a sequencia lógica e mental dos orgasmos múltiplos que descem até o pé da cama. As mulheres de Mahatan iriam gostar de ler. Agora, nesse momento, a água faz boiar todos os tapetes da casa. Agora eles voam. Flutuam. Pena que só ainda dentro de casa. Eu não vi mas sei que a água da banheira não se misturou com a água que entrou. Continuaram ali todos os objetos do banheiro. Até as revistas que trouxe de Berlim. Mas os livros da estante não são objetos. São bocas. São goelas de quem perdeu o sono bem na hora de dormir e deixou todas as águas virem. Eu entendi que a água veio por causa dos livros. Entrei. Fechei a porta. Coloquei minha cabeça em uma das mãos. Escrevi até começar a chover os sons de todas as palavras lidas e amanhecidas de livros em mim. Escrevi até a água secar da soleira da porta dos fundos até o rodapé da entrada. E fui dormir de manhã. A madrugada é a hora mais demorada do dia.

Domingo, 28 de Junho de 2009

Ela-fluxo disse dois pontos

Faz tempo as palavras não explodem como se num cesto de tâmaras maduras. Faz tempo e de manhã não tinha os assombros das estantes depósitos cemitérios de livros. Faz tempo não me comemorava uma hora sozinha tragando as vagas do mar no alto Leblon do meu coração. E aqui já jogadas as regras as gramáticas tratados todos no túnel de lixo do prédio. Eu descobri ontem mas já sabia que não precisa nem determinar o fim de uma narrativa a outra já começa atropelando a vida e assim não preciso também pontuar só bebendo meu café a única droga lícita nessa droga de prisão que pra mim não é porque agora mais ainda sem deformar meu cosmo psíquico menos aparente a escrita tem o privilégio de vasculhar o tumultuado interior mas sem deformá-lo sem deformá-lo sem deformá-lo e leitor quem aguenta isso tem que estar ligado ligado ligado a mim acompanhando a torrente transcorre e a personagem se dirige a si própria quem aguenta isso às vezes desconfio que liam melhor antes no tempo de clarice queria ter sido tua amiga ah amiga fico pensando na cara dos editores pegando lendo teus escritos e pasmos e hoje como seria entenderiam interrogação e é sempre esse estrato do que já foi antes da consicência e a presença de mais de um interlocutor na minha cabeça desarticulando lógica período sentenças num verbo mole de lábios que se solta que se solta que se solta parecendo a ordem do caos mas não é porque sempre é assim e você não sabe só o magma do subterrâneo jorrando jorrando lógos

Sábado, 27 de Junho de 2009

As velhas

Houve um tempo eu era avenida. Asfalto. Esquina. Passavam por ali carros, lambretas, todos os autos. As buzinas um tom de tecla sustenido de piano de papel. Imaginação intacta. Logo logo ali algumas lojas letreiros. Eu sentia falta nessas ocasiões era da goiabeira. Sentar ali naquele galho liso familiar olhar. Estacionaram em mim. Esses serviços nunca são cobrados. Supreso ao ler? Mas nunca são. Foi foi a vida. A vida ficou por lá. Pondera a velha aqui dentro não mais avenida. Cada dia quanto mais lúcida de chinelas. Corredor comprido. Ladrilhos. Janelas. Vestido solto florido como as velhas. Tão soltas e floridas essas velhas. Não mais avenida agora. Envelheci alguns quilômetros verdes. Mas não foram tristes essas veredas. Por mim alamedas. Acordei tantas vezes sem estar. Porque viajava. Hoje, casa floresta. Bosque. Serra. Galhos emaranhados até chegar. Não olhe rápido...A casa fica no alto. Tem alguém no jardim. Mãos pele fina cuidando das plantas. Cuidando de mim.

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Oração em vão da mulher-pamonha

Esse coração de gelatina que me deste. Esse coração de manteiga que me deste. E se eu colocasse na janela? Sim. Exatamente nessa noite fria de junho...Endureceria?

As palavras que não existem

O poeta na padaria com a mão no peito. Aperto. Não quer falar as coisas de velho. Fala dos assuntos que ninguém quer ouvir. O que ninguém falará quando partir. Por isso que é poeta. Não fosse assim, seria só o velhinho português da padaria.

Domingo, 14 de Junho de 2009

Plataforma

O mundo passa rapidamente. Vê lá, meu amor! Vê, lá...
Nós, que aqui ficamos, vemos o mundo. Rapidamente se foi. O mundo.
Nossa única plataforma foi esse AMOR que não valia nem a água fria da bacia pela manhã.
Escrevo esse poema para que ele dure 300 anos.
E serei famoso.
O homem de dois olhos.
De muitos casamentos.
Mas o homem de um amor só.
Vem, que o mundo passa rapidamente.
Não chora, nega!
Estaremos bem.

Carta antes

Cartas que leio
Antes de enviá-las
Leio-as tanto que não mando
De tão lidas por mim
Já se desfazem
Por isso
A carta que te mandei
Não li uma vez
Pra não ter vergonha
Pra não me sentir ridícula
Por causa desses pedaços de alma que deixei escorregar ali
Cartas aceitam respostas processadas
Que nascem durante o dia
Para serem só escritas
À noiteTalvez por isso
As cartas sejam mais verdadeiras
Porque não nascem nos repentes
Mas nas ruminações do dia
Nas horas rasgadas pela saudade
E eu passo o dia habitada
Pela eufórica vontade de saber se já recebeste
Se já leste
O que achaste
Se um sorriso te abriu o rosto

Sábado, 13 de Junho de 2009

Fábula das opções


A moça disse: eu quero uma maçã sem venenos. Vem a voz: não é época. Então me dê rubores. Algumas paixões de vidro. Na barraca ao lado. Promoção! Mas não há antídotos para os estragos. A dor da solidão tem um barulho de tamanco. O desconforto de um calo. Um bigode de suor. Titubeou. Não comprou nada. Não levou nada. Apenas o dilema: queria ser amada e continuar só. Gostava dos prazeres. Gostava do amor.

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Microconto da mulher-salada

Saiu saladeando por aí. Ganhou pepinos e abacaxis.

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Corde à linge


Meu amor, escuta essa música...Serenata pra você...Risos...Eu coloquei hoje. Na vitrola da minha alma-sala. Hahaha...Rio entre uma baforada e outra de oxigênio e gerânios. Uma paixão por ano. E viverei oitenta anos! E olha essa varanda cheia das minhas roupas íntimas pra todo mundo ver!Tem bordô nos babadinhos franceses das calcinhas teatrais. Renda. Renda-se a mim. Macia? Sim. Todo mundo também vai ouvir a música que escuto o dia inteiro. Porque eu não sei ser de outra maneira, meu amor. Só inteira/ Só inteira. Dê-me sua luz. Sopre-a em meus lábios. Desça os dedos pela minha espinha. Pelas costelas transversais. Brancas e alegres costelas transversais. Apaixono-me então por músicas. Give me your light...Please...Quero a tua sombra sobre meus ombros...Me embala...nesta sala perfumada. Não liga se os vizinhos veem as roupas no varal. Ou se escutam a música. Eles sabem. Help me. Amaremos flutuando como essas chamas crispando saindo da lareira. Gerundiando versos de morar no outro. Não ouça outras músicas. Não. Só a minha/ Só a minha. A que eu escutei duzentas vezes sem exageros. E não ria! Qual a minha cor pra você mesmo nesse escuro-penumbra-anoitecer? Se, pelo menons alguém, gostasse, como eu, das coisas que não existem... aquelas difícies de tocar, possíveis só em transe do meio-dia, eu me despedaçaria aos teus pés. Aos pés desse alguém-felicidade-amar.


Terça-feira, 9 de Junho de 2009

Projeto "Tardes verdes"



Subtítulo: O limite era só um véu. Eu podia tudo.
Antes de colher essas maçãs do quintal, me despeço dos caracóis do jardim. Tantas vezes avistados. Os primeiros bichos avistados por mim. Aquela trilha deixada. Fácil de seguir. Eu, pequena, observava. Mamãe chamando. Mamãe sempre me chamou. Mas eu quis outro caminho que não fosse o de mamãe. Talvez o de caracóis. Fui atrás deles em algumas tardes verdes. Nunca achei a casa, a toca, o buraco.
Jamais avistei abelhas ferozes e rainhas na minha infância. Nunca vi javalis. Eu só vi e só via caracóis. Era o que dava tempo. Era todo o tempo que eu tinha. Por causa disso e deles, eu aprendi a andar devagar. Essa presssa não é minha. Eu não tenho nada com a correria das ruas. Com a pressa das gentes. Eu fiz curso de viver no jardim. Eu entendi todos os gestos nas alamedas do afeto.
Essas casas de caracóis não precisaram de andaimes. Já moram neles. Eu moro em mim.

Domingo, 7 de Junho de 2009

Relembrando o traço, meio sem jeito



Quando meu indicador acompanhava os contornos dos outros...Faz muito tempo isso...Tirei estes dos rascunhos...

Sábado, 6 de Junho de 2009

Sobe e desce de nuvens


Plantava umas palavras
Tudo pra viver de vento
Nas nuvens também crescem árvores
Também se mora
Mas se fica fraco de sonho
Escorrega
Desemboca

Uma chuva
Que ninguém sabe
Estar sendo regado
De gente
Que sobe e desce
De nuvens

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Palavra nascida


Coloquei de molho algumas palavras. Para cozinhá-las depois. Eis a receita de um poema. Devagar dentro de si decanta. Não há necessidade de vozes externas. Tenho as imagens aqui nessa tela-eu. Fechou a janela do quarto. O sol e céu azul entravam radiantes e antipáticos. Fechei agitada as portas deste labirinto de provérbios e tolices espalhados. Tropeço sem jeito. Sapatos e laços não foram feitos pra mim. Esses tornozelos atados me doem até o último átomo. Nem sei ainda por que leio jornal. Vejo como passadas essas notícias de hoje. Os atores mirins já vão para boates. E eu ainda brinco de acalentar na água morna e amniótica essa Vida-lida dentro aqui. Não há frescor de nada. Nem assombro. Somente palavras cozidas. Servidas. Eu, de papel. Dobraduras de mim na bandeja da biblioteca municipal. Só me siga quem achar o mesmo: e eu não consigo enxergar Cervantes, só Dom Quixote. É que eu só vejo a verdade...e a verdade é o sonho...É o tombo...É a arte. Você não se atém a esses momentos de tremenda poesia fantástica? E nasce o verso.

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Dicionário de símbolos



Um gatoUma luaUma portaUma luvaUma donaUma estradaUma ruaUma ponteUma sombraUm monteUma penumbraUma mesmiceUma esperaUma entregaUm olharUm toqueUm troteUma janelaUma frestaUma maneiraUma trincheiraUm atalhoUm desvioUm minutoUm vazioUma históriaUma vírgulaUm pontoUma rimaUma noiteUm olharE de novoO luarE o luarPorque só à noite, só à noite, os amores os amores bandidos, idos, recíprocos, noctívagos acontecem sob a lua sob a luaPorque só os que tiveram amores secretos, submersos, indiscretos, entendem este poemar (poema + luar)Porque só quem amou assim, consegue enxergar este trajeto com afeto, de amante, delirante, sob a lua...e novamente a luaAmanhã, ao voltar pra casa, pelo vidro no caminho, olhe a luaEu estarei sentada nela, rindo pra vocêEu sou o sorriso da lua, a própria luaVocê vai entender...

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Narrador-editor perseguido e dominado pela personagem


Mas o que é isso? E vem sempre essa imagem: eu vejo os pés dela, descalços, na cozinha. Piso-ladrilho vermelho. Azulejos brancos e tudo simples. Chão encerado mais ou menos. Toalha ainda na cabeça. Olhos grandes e sapecas. Roupão branco e uma dúvida cruel em frente à geladeira. Tem danone. Tem sorvete. Mas tudo tão frio. Queria mesmo um abraço. Daqueles que faz sorrir, em desalinho, quem é de repente surpreendido. Ela continua ali. Parada. Mas com agilidade tal, visita na mente o quarto dele e dá palmadinhas bobas em seu ombro. Fala em pensamento ao pé de seu ouvido esquerdo (que é pra gravar melhor): foi excesso de cerimônia, eu sei. Foi tanto respeito e reverência contigo, que murchei. Me fechei. Foi isso. Ele sorri, em frente à tela do computador. Cerimônia, logo comigo!? Ele balança a cabeça e diz para seus próprios pelos na orelha: parem de enviar bobagens ao meu sistema nervoso-amoroso. Está tudo fechado. Encerrado. Ele ainda pensa nela. Pensa em como fechar de verdade uma história semi-aberta. Ela escolhe a garrafa branca de leite. Acha sexy o bigodinho branco deixado pela bebida pueril e age como se ele estivesse ali. Todos os dias, age como se ele estivesse ali. Um jeito Hepburn de ser. Sem quintas avenidas, sábado estará às seis em ponto na Paulista.

Sábado, 23 de Maio de 2009

Garota-doçura

Machuca. Machuca esse coração alado. Não consegue voar. Estacionei nessa madrugada meus hábitos de ecologia coracional. Socorri meu peito. Tarde. Nascer com o sol e florescer com esses gerânios nos jardins de Petrópolis. Afaga. Apaga esse riscado de giz na lousa da despensa. A raiz do sinônimo amoroso já se corrompeu. A espera na janela mofou nesse céu de maio. Noiva. Flor no cabelo. À caminho do buraco. Quantos buracos até chegar? Cada dia é um cair sem fim no tempo que não vem claro. O minuto seguinte é sempre algo que nunca soube. Ninguém sabe. E todo mundo. Acordar é nascer. Cada dia uma vida. Na vida de hoje, sem amores furtivos ou de metrô. Nada de acompanhar os olhos pelo vidro dessa janela andante. Os trilhos me levaram. Estou só. Mas nunca estive acompanhada. Pensei nos anéis. Nas pulseiras. Engraçado os formatos de prender. Eu só queria passear nos abismos. Só conversar. Perder meus dedos em teus cabelos. Devagar.

Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Dulcinéia vai a pé

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Ouvindo essas palavras, pensou se não seria melhor esquecer tudo e partir. Dali de onde estava, seria um longo caminho. Julgou o peso da distância, escolheu um belo meio fio e sentou-se. Sentir-se ridícula já lhe era familiar. Pensou que para esses momentos, o mais acertado seria usar máscaras. Mas isso, a vida não lhe preparou. Soube que estaria sozinha dali pra frente. Antes, antes era o sonho, a espera. Se conseguisse visualizar dez passos, poderia levantar-se e seguir. Nem sabia se havia caminho. Saudade das divagações saborosas sobre o futuro. Das cores do sol comemoradas à janela de casa. Lembrança fresquíssima da felicidade ainda. Faz quase uma semana que um velho leu eu seus olhos, nos riscos e nuances da íris, que ela seria sempre assim: um ser andante.

Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

A cortina do meu quarto é de estrelas


Às vezes, só é permitido viver, sem graça viver. Noutras vezes, pulamos o muro enlameado de sonhos e corremos, mais do que o peito consegue. E esta é a vida que eu quero!

Domingo, 17 de Maio de 2009

A senha é: estranho

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Hoje, mas só hoje, abrirei as janelas deste quarto. Eu tenho tantos livros ao pé da cama. Será por isso que não durmo direito? Assim como quando era criança, que os brinquedos saiam andando logo que minha mãe fechava a porta. As páginas dos livros daqui devem abrir e as palavras vão flutuando até mim. Eu não olho. Olho nada! De repente vem a palavra “libertinagem” e amanhã tenho que trabalhar. Eu contava dos brinquedos no outro dia e ninguém, mas ninguém acreditava. Só o João. Que besteira a minha manter essa janela fechada por tanto tempo. Porque já senti o vento massagear em mim. Com mãos calmas em meu rosto. Mas a porta, esta manterei fechada. Porque fugir, é sempre melhor pela janela. Eu queria que as pessoas pudessem andar com chapéus. Vários. Sem ninguém pestanejar por estar estranhando. Eu queria que a senha fosse ser “estranho”. Eu abri as janelas porque ninguém tem razão mesmo. Estou repensando a ideia de continuar a dormir com livros.

Sábado, 16 de Maio de 2009

O "Estripitize-se" é lido por quem gosta e por quem não gosta de tirar a roupa.


Um ano e cinco meses de blog e 17 mil visitas. Obrigada a todos. Um beijo, mô amorim.

Garota Colorama desabraçada


Vem nessas tardes sem sol e cinza, uma vontade de vermelho carmim. E tem uma rosa em 3D tatuada no ombro, abraçada por folhas em musgo. Dorme impresso um dragão perto da bunda, no tracinho, já pra subir a coluna. A pele branca: branco-bebê. Maciez irritante Davene. Vontade de ser e é...Umas curvas. Um jeito de sorrir com medo. Uns pelinhos dourados. Um olho sempre chafariz. E umas unhas escuras pra ninguém notar...Pra ninguém notar que a dor foi tirada das veias e a sujeira ainda está embaixo do esmalte colorama.

Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

O registro mais grave dos meu ais em quantidades razoáveis

Estou aqui, meu amor. E ninguém sabe. Desta vez fotografei o abismo. E nenhuma bebida na cabeça. Tirei as botas. Tirei as asas. Mas sou doce ainda. Eu ainda. Este é o último bar da estrada. Venha e não me deixe down. Preciso das tuas ternuras, manias. Nem tão bem, nem tão mal. Apenas me ame ao som deste blues, que às vezes para na corda de cima do contrabaixo. O som mais baixo. E três rajadas das tuas mãos nessas cordas. As pausas, esses ais e a poeira enchem este bar. For me. E a mala cheia de contrabandos está trancando a porta. Be meus ais dedilhando, dedilhando e essas pausas de novo...me dá tempo para pensar: qual será o próximo acorde? E é esta a graça: de estar no último bar deste deserto. Ninguém sombrio por perto. Mamãe não me conhece. Papai já sabia. Por isso me batia. Only...soletre only...Cuidado! Ninguém pode ouvir! Não vou querer mais voltar. Garota. Garota má. Eu jamais escreveria isso se não fosse esse blues. Eu me curei com florais. E gritava: garota má, garota má...
*(Para ler ao som do blues mais despretensioso que já!)

Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Melancolia charmosa versus "joie de vivre"

http://www.marioquintanavidaeobra.blogpsot.com/

É uma coisa assim assim
Não chega a ser dor
Ou se for
É uma dor fininha
Não chega a fazer barulho não
Ninguém chora efusivamente por melancolia
Nem se descabela
É coisa de poeta
Um estado nublado n'alma
Que fica até charmoso
Um entristecer vagaroso
Chique
Típico de quem não é alienado
Porque é pedante ficar com alguém irritantemente entusiasmado o tempo todo
Precisa de um ar blasé de vez em quando, sabe?
Estar enjoado e coisa e tal
Porque a 'joie de vivre' fica para o almoço
A melancolia charmosa cabe bem é no final da tarde
Quando a noite já quer invadir
E você olha o céu
O peito aperta
Uma saudade de não sei o quê
Então convida os queridos
Pra perto ficar
Ou quando a melancolia
É mais densa
Prefere só o mais chegado
Para uma cerveja no final da tarde
Uma conversa marota
Pra xingar um pouco os políticos
Falar mal das traíras do trabalho
Reclamar de sabores que não são mais iguais
Como os das paçocas que não voltam mais
E fechar a noite
Contando daquele amor
Que sonha chegar
Pede a conta
Deixa a melancolia pra lá
Liga não
Amanhã ela está de volta
No final da tarde
Quase quando a noite chega
E de novo
Ela te segura pela mão
Mostra o céu rosado
Dor fininha, serena...
Agradece
Porque se fosse só o entusiasmo irritante
Você estaria mais fútil que mulher de presidente
Acenando em aeroporto internacional
Agradece
Curte
Melancolia charmosa
É coisa de gente inteligente
Especial!

Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

As Horas-Virgínias?

Virginia Woolf, Vanessa Bell


E gosta do dia enquanto não começa. Gosta, (impressionante...) das coisas, enquanto não começam. Gosta da não-pressa. Do vagalhar. Do trec-trec da porta rangendo. E não coloquem óleo nisso! Ah, a porta...Entre a tua disposição para o fato ou para a versão comprada dele, existe a porta. E aí, patrão? Vai uma empurradinha aí? Você quer ver? Está certo de que quer ver? Existe a liberdade, meu caro. A liberdade de escolher a próxima prisão. Qual é a hora da tua tortura? Às quatro da tarde? Ou no fim da noite, antes de apagar a luz e morrer um pouco? Qual é a hora feliz da tua prisão? Eu descobri, que o longe é puro demais. Que o longe é não sujar-se, apesar de belo me parecer, antes do arremesso do meu corpo e existência nele. No longe. Nos ancestrais. Nessa vila. Há os trabalhadores calados. Iguais. Mas eu sempre irei murmurar. Você sempre se irritará com os meus ruídos. Ando, ultimamente, roendo livros. Quando não puder, inventarei meus homenzinhos minúsculos para brincar. Quando não puder inventar mais, eu não sei. Eu tenho sempre pouco dinheiro no bolso. O perigo é meditar. É duvidar que depois de ser feliz, não há mais nada. Por isso gosta dos começos, dos espaços que antecedem o aperto de mão, os lábios desgrudando para a palavra surfar no vento, cantando feito violino na perfeita acústica do lado de fora. Antes de aposentar tudo. Depois da palavra dita, o ar se empurra e a mais doce borboleta é culpada por esses temporais. Acordei com o maxilar doendo em meu aposento árcade. Eu quis segurar o mar de dentro. Doidice. Foi feito para jorrar. Se você abrir a porta, não sei: podem vir tanto peixes, dragões, dromedários ou insetos da noite...Eu não seguro o momento após. Volto no que foi antes, e olhe! Se foi. E soltou-se da minha mão. Estava aqui! Eu juro.


Daqui, deste lugar da sala, olhando o relógio mais velho que meu pai, não entendo ainda as horas. Não entendo por que não param um segundo sequer, enquanto eu descanso antes?

Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

A culpa do verso

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A maçaneta perguntou o meu caminho. Eu não respondi aonde ia. Você deve se colocar no seu lugar de maçaneta, viu? Mas no elevador, ela me mandou um torpedo mental: eu sinto a vibração das suas mãos ao chegar e ao sair, eu sinto sua busca. Busca o quê? Joguei a mensagem no lixo e fui viver. Eu não sabia aonde. Mas qualquer lugar é igual. Escolhi a Marcílio Dias. Olhei as linhas das mãos e não me disseram nada. Já sei! Já sei! O caminho está aqui dentro. Tá bom. Vou seguir. Segui. E é sempre assim: atrasada na estação. A notícia que geraria alegria só é percebida meses depois. Eu nunca comemoro o fato-hora. É sempre depois que tenho a apreensão dele. Então choro. Sento nas calçadas, pego o pão dos mendigos e choro. O mundo hoje ficou branco. Vou fazer de conta que morri. E acordar de novo. A gente morre e acorda toda hora. Basta se lembrar disso. Hoje pode ser outro ano segundo meu calendário bipolar. Percebi que olhar esse teto-céu é mais apaziguador que meu quarto de dormir que não uso pra dormir. Veio um cheiro insuportável de livro. Preciso me levantar: disse aos mendigos. Fiquei me sentindo culpada pela maçaneta. Eu nunca dei bola pra maçanetas. Algumas pessoas pensam que conhecem tudo porque sabem quem escreveu. Só quem sabe é quem... Espere: Eu já vi um velho comprar um livro só por causa de um verso. E isso só pertence a quem vê espaços brancos onde todo mundo vê cores artificiais. Eu leio Caio Fernando Abreu em voz alta e espero desesperadamente os homenzinhos verdes em meu tapete.

Fora de/da linha


Eu fui movido, durante muito tempo, por uma febre. Vestia meus ternos. Sapecava perfumes de mar, de vento e de montanha. Meu peito era forte. Eu agüentava. Agora, ficando velho, coração de criança me tomou. Ando em desalinho. Sempre desarrumado. Um fraco sonhador. Não mais na linha. Nem na cordilheira. Nem nos trópicos. Nem fervura nas veias. Vivo na barra da saia da mãe morta. No quintal da casa vendida. Nos vilarejos de infância. Eu quisera ainda compor uma epopéia. Mas só me vêm versos de batatinhas.


Terça-feira, 5 de Maio de 2009

Os lugares móveis

www.ciatrapaca.blogspot.com/

É mais forte que eu essa ternura. Eu fico escondida atrás dessa porta, que nem sei quem comprou, e eu nem sei tantas coisas. Às vezes estou parada em algum lugar da minha vida de adulta e realmente não sei como fui parar ali. Como foi mesmo? Como consegui? Acho uma piada tremenda eu conseguir tantas coisas. Tantas coisas que pessoas normais conseguem como comida, teto, roupa e sapato. Eu sempre esperei as estradas. Os lugares móveis. Os labirintos. O dom de curtir a surpresa. Nunca as cercanias. Nem as propriedades com placas gritando o nome dos donos. Eu sempre quis mais sentir que ter. Eu não sei ter. É inédito ter. É ilusão ter. Mas eu assumiria a loucura de te sentir para sempre. Num quarto branco não ofuscante. Janelas abertas. Cortinas sempre voando. O telefone nem toca mais. Eu não tenho telefone. Eu ando pelas calçadas e se um amigo me sorrir, vale o dia. Daí, rola um cinema, um drinque de refrigerante, um chá cheio de nitrito dissolvido. Tem uma trilha errada sob os meus pés. Mas só por fora. Só nas coisas de se ter que não entendo. E acho sempre mais chiques os que estão na pindaíba. Os esfarrapados. Que estão sempre perdidos. Procurando. Acho bonito os problemáticos, os não-compreendidos. Os que tem ideologia e ataques de nervos em Zurique. E acho pedante os que dizem: "Eu já achei! Eu sou feliz! Você precisa disso que eu tenho!" Existe uma trilha certa, amor. Sente a minha mão. É por onde você sonhar. Há uma trilha certa. Nessa, eu já nasci. Mas é por dentro. Ninguém vê. Eu vou por ela. E nem precisa pisá-la. Nessas estradas de alma, só se flutua. Nelas, a gente consegue ser profundamente e mais profundamente que o azul do mar. Oceno tocando Búzios: mar. Eu sei que dá medo de novo sentir essa ternura-aconchego maior que nós. FLY em tecidos leves. Sinta o desenho das minhas digitais. Fecha os olhos. Então? Risos. Gargalhadas. Este é um amor sem abraços. Benvindo!

Domingo, 3 de Maio de 2009

Língua afiada

Avança direto em mim nas minhas vagas me distraindo toda esses pronomes. Para traduzir? Não há vagas. Obrigada por seus serviços desnecessários. Para o amor não há tradução.